O consumismo e a sua antítese

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‘Black friday’: mais uma importação norte-americana que, por cá, parece ter encontrado adeptos. Do outro lado do Atlântico chegam-nos notícias de um consumismo desenfreado, histeria, comportamentos pouco cívicos e até violência. Nesta margem do Oceano, circulam na internet inúmeras imagens e vídeos de muita confusão, com centenas de pessoas à porta de lojas que, assim que os portões de segurança começam a levantar, se empurram e atropelam para, no meio da confusão, conseguirem correr até alcançarem o desejado artigo em promoção antes que outra pessoa o faça.

Vistos por muitos como uma forma de antecipar as compras de Natal e assim poupar algum dinheiro que viriam a gastar mais tarde, os descontos e promoções da “Sexta-feira Negra” parece atrair cada vez mais portugueses. Isto apesar dos alertas – por exemplo da Associação de Defesa do Consumidor – acerca de práticas menos éticas de manipulação dos preços, aumentados dias antes das promoções para simular os tais descontos.

Para não cair nas armadilhas do consumismo e da impulsividade consumista, tanto nesta como em outras ocasiões, é crucial ter consciência acerca do que temos efectivamente necessidade de adquirir por oposição ao que compramos somente por sermos influenciados, estando bem cientes de que, da publicidade à experiência dentro de um loja, tudo é pensado para favorecer o desejo de consumo.

Com vista a desviar o foco do consumismo promovido pela massificação da ‘Black Friday’, um pouco por todo o Mundo vão surgindo iniciativas que apontam alternativas direccionadas a um consumo mais consciente e racional.

Uma livraria na Suíça optou por implementar a ‘Fair Friday’ (‘Sexta-Feira Justa’) e convidar os seus clientes a dar um contributo contra a pobreza, revertendo esses donativos a favor da Cáritas e promovendo assim «um gesto de compaixão para com os mais pobres», nas palavras do proprietário da Livraria Payot.

No Reino Unido, a Choose Love, loja da organização humanitária Help Refugees, abriu, pelo segundo ano consecutivo, as suas portas em Londres na ‘Black Friday’ com uma fila de clientes à espera, ansiosos por comprar cobertores, tendas, acessórios de higiene, roupas e material didático para doar a refugiados na Europa e no Médio Oriente. «Quando se olha para as estatísticas de quanto dinheiro é gasto na ‘Black Friday’ e se compara isso com a necessidade do mundo, é bastante chocante. Nós realmente queríamos mostrar que havia outra maneira de olhar para o consumismo e outra maneira de olhar para a ‘Black Friday’», explicou a diretora executiva da Help Refugees, Josie Naughton, ao The Guardian.

Em Bilbau, desde 2014, que o ‘Fair Saturday’ concentra, no dia seguinte à ‘Black Friday’, dezenas de actividades artísticas com impacto social, este ano revertendo parte do dinheiro angariado, para um programa que promove a integração de crianças em ambientes de risco de exclusão social, chamado Barreiras Invisíveis. A iniciativa, que já se estendeu a outras cidades em Espanha, mas também no Peru, no Reino Unido e em Itália, tem por objectivo «que a cultura inunde as cidades que queiram participar deste projecto para contrastar com o que consideram o dia mais consumista do ano, com o fomento do progresso através da arte», segundo explicou Jordi Albareda, fundador e porta-voz do projecto ao El País.

Nos Estados Unidos da América surgiu também, em 2012, o movimento global #GivingTuesday que se realiza na Terça-feira que se segue à ‘Black Friday’, em mais de 40 países diferentes, e que pretende incentivar e multiplicar boas acções “para unir o mundo inteiro no espírito da generosidade e doação”. A iniciativa tem o intuito celebrar o acto de dar, sejam alimentos, dinheiro, tempo ou objectos em segunda mão.

Todas estas iniciativas lembram-nos que temos sempre a escolha de agirmos e de sermos mais conscientes, de contribuirmos para uma sociedade mais generosa e solidária. E até o Papa Francisco reflectiu, esta semana, sobre o consumismo, que classificou de «uma doença séria» e o «inimigo da generosidade», sublinhando que partilhar o que temos é um modo de ser generoso e que essa «generosidade material» – de «pensar nos pobres, “isso posso dar para que possam comer, para que se vistam”» – tem uma consequência «alarga o coração e leva à magnanimidade».