Recordando os meus mortos no dia de Fiéis Defuntos

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Tudo ou quase tudo, foi dito e redito, sobre a Morte. Parece-me, portanto, descabido, vir neste dia triste de Fieis Defuntos, abordar o tema, tecendo considerações que, a maioria dos leitores, perfeitamente, conhecem.

Mas, ao folhear a “Imagem da Vida Cristã” de Frei Heitor Pinto, deparei passagem que me impressionou, pela singeleza e verdade que encerra: “É muito para espantar de nossos cuidados, sendo nós mortais, e vestindo e calçando de animais mortos, e comendo coisas mortas, e falando a cada dia nos mortos, não nos lembremos dos mortos.”

Já Camões, em Carta, escrita de Ceuta, observava, que nunca vira: “Cousa para lembrar e menos lembrada que a morte.”

Possuo (como a maioria dos leitores,) longo e infinito rosário de amigos e familiares, que me foram “deixando” ao longo da vida; mas acompanham-me, em mudo silencio…metamorfoseados em seres etéreos.

Surgem-me, por vezes, de repente, em sonhos. Então, ouço-os com prazer. Escuto vozes e palavras familiares, tão nítidas, tão reais, que fico com a impressão, que regressaram ao mundo dos vivos.

Outras vezes, perpassando por locais, que me são queridos, revivem, dentro de mim, retalhos de conversas, perdidas num passado distante, que foi, mas já não é.

Ao sentar-me, a semana transacta, na Praça da Liberdade, defronte da estátua equestre de D. Pedro, saltou-me, de súbito, à memória, recorte agradável do passado: a cavaqueira, que certa manhã de Inverno, mantive com o Manel (o “M” à quinta, como se intitulava,) – Manuel Maria Meirelles de Mello Magalhães. Falávamos, então, de Bento de Amorim.
Há, também, cenas que relembro com carinho. – Ah! Como me lembro!… – Da acolhedora salinha, onde, em cálidas tardes de Verão, dialogava com: D. Eugénia Rapazote Flores. Espanto-me, ao descobrir, ainda dentro de mim, a voz branda, e o peculiar perfume do aconchegante lar!; hoje, totalmente, desfeito.

Noutras ocasiões, recordo, nitidamente – como se hoje fosse! – da querida prima Mariazinha, de Cascais; e do aprazível passeio que demos à Ericeira; terra onde a bondosa Rainha D. Amélia, embarcou para o exílio.

Lembro-me – com saudade!… – das tardes de sábado, na companhia de Frei Martinho Manta, no parlatório do conventinho. Era franciscano, simples, observador, e conselheiro. Verdadeiro discípulo do Homem da Porciúncula.

Quando o sono foge, na penumbra de meu quarto, em longas e intermináveis noites de insónia, desfilam, diante dos olhos, entes queridos, que “partiram” para sempre. Até, os que apenas conheci epistolarmente, como Teresa de Mello – D. Maria de Lourdes Brandão de Mello – (Senhora, que se carteou comigo, legando-me muito da sua experiência,) participam no meu triste recordar.

Aflora-me, neste momento, à memória, muitos dos meus mortos, que me marcaram pelo saber e bondade: D. Celeste (da Família Borges Guedes), sempre bondosa e amiga; D. Eugénia (neta de D. João da Câmara); Isaura Correia Santos (que morava na Praça da Gali- za); O Daniel (pai da Lalita, ex-aluna do Colégio da Baforeira, da Pa- rede); D. Laura Cunha (que vivia em Gaia); Anselmo Tavares (homem bom, de Macieira de Cambra).

A lista não tem fim: Amadeu Neves; Reinaldo Pacheco; Alberto P. Vargas; Padre Querubim (pároco de S. Nicolau, no Porto); Roca Colomé (companheiro do liceu); Prof. Doutor, Padre, Videira Pires, que generosamente me apadrinhou, publicando meu primeiro conto, no: “Mensageiro de Bragança”; e muitos outros, que sempre me acompanharam ao longo da longa jornada.

Neste meu recordar, ia esquecendo – esquecimento imperdoável, – do primo Júlio. Homem simples, mas sempre amigo e prestável. Nada que se lhe pedisse negava.

Todos fazem parte de mim. A todos sou devedor. Todos vivem sempre comigo. Todos me legaram um pouco do seu modo de encarar a vida.

Tenho, de todos, um pouco. É como continuassem a existirem dentro de mim…